A decisão do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, de manter a taxa de juros inalterada em reunião realizada na quarta-feira (28) gera debates sobre possíveis riscos para a economia do país. Embora amplamente esperada por analistas e precificada pelo mercado com 91% de probabilidade segundo a ferramenta FedWatch da CME, a medida ocorre em um cenário em que a inflação permanece em patamares elevados e o custo de vida destaca-se como a principal preocupação dos eleitores para as eleições de meio de mandato.
Os preços ao consumidor registraram alta de 3,7% nos últimos 12 meses, situando o indicador preferido do Fed 50% acima da meta estabelecida. Diante desse quadro, críticos apontam que a autoridade monetária pode estar repetindo o erro de 2021, quando classificou a inflação como um fenômeno estritamente transitório impulsionado por choques de oferta ligados à guerra entre Rússia e Ucrânia e a problemas nas cadeias de suprimentos. Naquela ocasião, a dinâmica inflacionária resultou na maior crise em uma geração, com alta anual de até 9,1%, forçando o Fed a elevar os juros de forma drástica e histórica.
Fatores que pesaram na manutenção dos juros
A decisão de não alterar a política monetária envolveu a ponderação de diversos indicadores econômicos e políticos:
- Mercado de trabalho: Os Estados Unidos criaram apenas 29 mil vagas em setembro, ficando bem abaixo das expectativas, além de revisões que apontaram 60 mil postos a menos nos dois meses anteriores. Embora a taxa de desemprego se mantenha em 4,2%, economistas caracterizam o ambiente atual como um mercado de "poucas contratações e poucas demissões".
- Mercados financeiros: Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano subiram para patamares elevados em várias décadas e, embora tenham recuado para os níveis de meados de setembro, continuam a exercer um efeito semelhante ao de uma taxa básica de juros, contribuindo para desacelerar a economia.
- Momento político: Narayana Kocherlakota, ex-presidente do Federal Reserve de Minneapolis, apontou que a instituição pode ter hesitado em elevar os juros para se distanciar de críticas do presidente Donald Trump diante da proximidade das eleições.
Riscos de pressões inflacionárias e novas altas
Especialistas alertam que o adiamento no combate à inflação pode obrigar o banco central americano a adotar um tratamento de choque em dezembro, possivelmente elevando as taxas em 0,5 ponto percentual para compensar o tempo perdido. Sinais de propagação da inflação aparecem em custos de moradia e aluguéis, além de despesas com serviços e investimentos em inteligência artificial e centros de dados.
Além disso, o cenário internacional permanece incerto. Declarações de Donald Trump indicam que os Estados Unidos e Israel podem intensificar o conflito contra o Irã após as eleições, o que pressionaria ainda mais os preços do petróleo. Por outro lado, o governo mencionou um cessar-fogo energético envolvendo a Rússia que tem impulsionado a produção de diesel. No entanto, o prolongado encarecimento da energia eleva produtos e serviços em toda a economia, deixando o Fed em alerta para os próximos passos da política monetária.
