Um pedaço de Floresta Amazônica virgem com 14.000 hectares, localizado na Fazenda Vale Verde — área equivalente ao tamanho do município de Niterói (RJ), às margens do Rio Branco, em Roraima —, evitou o desmatamento após uma proposta de conservação florestal voltada para a venda de créditos de carbono. A propriedade foi adquirida há três anos por Ademar Bedin, um produtor rural originário de Goiás que pretendia derrubar quase metade da mata para cultivo de soja, aproveitando o limite permitido por lei.
A mudança de planos ocorreu após um acordo com a ZEG, empresa do grupo da comercializadora de energia Capitale, sediada em São Paulo. Pelo contrato, com duração de quarenta anos, Bedin cedeu o uso da terra, enquanto a ZEG assumiu os investimentos em tecnologia, infraestrutura e pessoal para proteger a vegetação. O arranjo prevê evitar a emissão de mais de 4 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente entre 2025 e 2065, nos 6.000 hectares que seriam destinados à agricultura.
Projetos como o da ZEG buscam transformar a preservação da mata em receita, direcionando a agropecuária para áreas já abertas e sem uso. As emissões evitadas geram créditos — cada um correspondente a 1 tonelada de carbono equivalente —, que podem ser adquiridos por empresas no mercado voluntário para compensar impactos ambientais e demonstrar compromisso ecológico a clientes e investidores. A retirada de carbono da atmosfera também pode gerar créditos por meio do plantio de árvores.
Para comercializar créditos de conservação, os projetos precisam comprovar adicionalidade, ou seja, demonstrar que a vegetação corria risco real de desaparecer. Em Roraima, essa pressão aumentou após o estado utilizar uma exceção do Código Florestal em 2022 para reduzir a Reserva Legal de 80% para 50%, o que resultou em uma alta de 53% na perda de cobertura florestal em 2024, tornando o estado o único da região com aumento no desmatamento.
Carlos Jacob, presidente da ZEG, aponta que o plano da empresa para Roraima, batizado de Vale do Rio Branco, abrange toda a área do estado onde a Reserva Legal foi reduzida para 50%, o que representa 30% do total. A estratégia consiste em expandir as áreas de conservação a partir da Fazenda Vale Verde. Para a proteção da área, a tecnologia é utilizada com uma torre de 60 metros equipada com câmera giratória e inteligência artificial capaz de detectar fumaça em um raio de 20 quilômetros, acionando brigadas de incêndio. Câmeras terrestres também registraram 28 espécies de mamíferos, como onça-pintada e anta, além de mais de 200 espécies de aves.
Em agosto, a ZEG firmou parceria com uma associação de castanheiros locais, que ganharam acesso à mata para a coleta de castanhas-do-pará, além de apoio em equipamentos e na busca por compradores. Estima-se que existam cerca de 20.000 castanheiras na Fazenda Vale Verde.
O projeto integra a categoria REDD+ (redução de emissões por desmatamento e degradação florestal). O mecanismo busca recuperar a confiança do mercado após investigações, como a reportagem do jornal britânico The Guardian em janeiro de 2023, apontarem que boa parte dos créditos de conservação era ilusória. Para garantir qualidade, o projeto Vale do Rio Branco recebeu nota AA da agência britânica BeZero Carbon antes mesmo da emissão dos créditos, avaliando quesitos como adicionalidade, contabilização e capacidade de execução.
O mercado de créditos de carbono combina diferentes abordagens. Fernando Visser, diretor de desenvolvimento de negócios e tecnologia da re.green, aponta que as empresas estão montando portfólios que unem restauração e conservação. No entanto, os preços variam: Plínio Ribeiro, cofundador da Silva, estima em 10 dólares o valor pago por crédito de conservação com selo de integridade, enquanto leilões de créditos de restauração ecológica na Amazônia, como o realizado pela Petrobras em junho passado, registraram preço médio de 59 dólares para 5 milhões de toneladas de CO2 equivalente, refletindo o custo mais elevado do plantio.
