A Coreia do Sul passou por uma ampla transformação nas últimas décadas, deixando de ser reconhecida internacionalmente sobretudo pela indústria pesada, eletrônica e de automóveis para se consolidar como uma superpotência criativa global. O fenômeno cultural conhecido como Hallyu, ou Onda Coreana, movimenta bilhões de dólares e atrai fãs em todos os continentes por meio de produções que vão muito além da música.
O sucesso internacional do movimento desafia barreiras linguísticas. Grupos de K-pop como BTS e Twice alcançam rotineiramente o topo das paradas de sucesso nos Estados Unidos e no Reino Unido. No setor audiovisual, produções como a série Squid Game bateram recordes históricos de visualização e o filme Parasite fez história ao vencer o Oscar de Melhor Filme. Além disso, a literatura sul-coreana aponta como a próxima grande fronteira de sucesso internacional.
A estratégia de apoiar sem interferir
Analistas apontam que a fórmula por trás dessa hegemonia cultural reside em uma combinação estratégica entre o dinamismo do setor privado e o apoio público inteligente. Desde o final dos anos 1990, durante a presidência de Kim Dae-jung, o Estado sul-coreano passou a tratar a cultura como uma commodity de exportação.
A diretriz adotada foi a de apoiar sem interferir. Por meio de incentivos fiscais, linhas de crédito e investimentos em escolas de artes e em festivais renomados — como o Festival Internacional de Cinema de Busan —, o governo financia as bases para que criadores e estúdios privados atuem com total liberdade artística. O K-pop evoluiu para uma operação internacional, integrando compositores suecos, coreógrafos americanos e artistas de diversas nacionalidades, além de impulsionar o interesse global pela aprendizagem da língua coreana.
Impacto na economia e nos hábitos de consumo
O alcance do Hallyu transformou hábitos de consumo globais, ultrapassando as telas e os fones de ouvido:
- K-beauty: A indústria de cosméticos atrai multidões aos bairros comerciais de Seul e caminha para movimentar mais de 18 bilhões de dólares até 2030, impulsionada pelo uso de ingredientes naturais.
- Gastronomia: O tradicional kimchi ganhou espaço nas prateleiras internacionais devido aos benefícios para a saúde, o gochujang destaca-se em cozinhas de grandes chefs, e itens como o corn dog e o soju viraram tendências globais.
Os números comprovam que a cultura se tornou uma das ferramentas econômicas mais poderosas do país, superando os rendimentos de exportação de setores tradicionais como eletrodomésticos e veículos elétricos. Estima-se que apenas o grupo BTS gere cerca de 3,67 bilhões de dólares anuais para a economia sul-coreana por meio de consumo, turismo e exportações. O lançamento do single Dynamite, por exemplo, criou quase 8 mil postos de trabalho.
Desafios e debates sociais
Apesar do destaque internacional, a indústria cultural sul-coreana também enfrenta desafios e debates sociais intensos. No passado, gestões governamentais conservadoras criaram listas para cortar financiamentos a artistas com posições políticas divergentes, incluindo diretores aclamados como Bong Joon-ho e Hwang Dong-hyuk.
O setor também lida com controvérsias complexas sobre a saúde mental dos artistas, pressões extremas nas carreiras, episódios de assédio e problemas estruturais revelados por escândalos nos bastidores da cultura pop. Contudo, o modelo deixa lições sobre a capacidade de inovação, resiliência e abertura global.
