À frente da operação da Roche Farma no Brasil, a presidente Lorice Scalise defende a aposta permanente da companhia em novos tratamentos, mesmo que isso implique abrir mão de medicamentos consagrados. Com faturamento de 4,5 bilhões de reais no país em 2025, a empresa suíça prevê registrar um crescimento de dois dígitos no atual exercício.
Farmacêutica de formação e com 54 anos de idade, a executiva ingressou na empresa no ano de 2000 na função de vendedora-propagandista, tornando-se posteriormente a primeira mulher a comandar a subsidiária brasileira. A visão de Scalise sobre o ambiente de negócios no país diverge de queixas comuns entre outros líderes corporativos: ela elogia o Sistema Único de Saúde (SUS), ressalta a reputação internacional da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e questiona a percepção de insegurança jurídica.
Estratégia focada em inovação e abandono de clássicos
Durante a entrevista, a presidente destacou que a missão exclusiva da farmacêutica é a inovação. Devido a esse direcionamento, a empresa abriu mão ao longo de sua história de produtos de alto volume e vendas expressivas, como o antibiótico Bactrim e o ansiolítico Rivotril. Dedicar recursos comerciais a itens consolidados significaria, segundo a executiva, perder energia que deve ser canalizada para o desenvolvimento de novidades.
A executiva reconhece que o modelo é desafiador — o processo de desenvolvimento de uma molécula até virar produto pode levar até quinze anos, com uma taxa de sucesso em que apenas uma a cada dez moléculas pesquisadas vingue —, mas avalia a situação como uma oportunidade, e não como risco. Globalmente, a empresa possui 130 anos de fundação e completou 95 anos de presença no Brasil.
Avaliação do mercado brasileiro e do SUS
Para a presidência da filial brasileira, o mercado nacional apresenta grandes atrativos, destacando a população superior a 200 milhões de habitantes. Desse total, 50 milhões são atendidos pelo sistema de saúde complementar e privada, enquanto 150 milhões dependem exclusivamente do SUS. Para Scalise, o modelo público representa a maior conquista social do país.
A operação financeira da companhia reflete essa divisão: 40% das vendas ocorrem no sistema público e 60% no privado. O faturamento de 4,5 bilhões de reais alcançado no último ano avançou em dois dígitos na comparação com o período anterior, ritmo de crescimento esperado novamente para 2026.
Pesquisa clínica, inteligência artificial e obesidade
O Brasil desempenha um papel relevante nos programas globais de desenvolvimento de produtos da farmacêutica. No ano passado, foram investidos 600 milhões de reais em pesquisas no país, em parceria com 216 centros de pesquisa que auxiliam no recrutamento de pacientes. Além disso, a inteligência artificial (IA) tem sido utilizada para otimizar o tempo e os custos de pesquisa, ajudando a identificar perfis de pacientes e a cruzar dados de publicações científicas.
No segmento de combate à obesidade — aceita socialmente como doença crônica —, a Roche desenvolve formulações orais e subcutâneas, conhecidas popularmente como "canetinhas". Atualmente, a empresa possui 100 moléculas em desenvolvimento, com estudos em andamento no Brasil voltados para essa área terapêutica.
Equidade de gênero e ambiente regulatório
No aspecto interno corporativo, Scalise implementou no Brasil a licença parental igualitária, na qual tanto mães quanto pais têm direito a seis meses de afastamento em casa, equiparando o tratamento e os custos trabalhistas entre gêneros dentro da organização.
No cenário regulatório e jurídico, a executiva reforça a segurança na atuação no país, destacando a solidez do marco regulatório brasileiro, a força do SUS e o prestígio internacional da Anvisa, cuja reputação é comparada à do FDA (dos Estados Unidos) e da EMA (da União Europeia), servindo inclusive como referência para registros no Japão e em Hong Kong.
Fonte: https://veja.abril.com.br/economia/nossa-missao-e-inovar-diz-presidente-da-roche-no-brasil/
