A derrota eleitoral e a subsequente viagem de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos abriram espaço para debates sobre o futuro da direita no Brasil. Pouco mais de 42 horas após divulgar um vídeo no qual criticava o recolhimento de seu passaporte por determinação do ministro Alexandre de Moraes e afirmava nunca ter pensado em deixar o país, o senador desembarcou em Miami em um jatinho acompanhado da esposa e de duas filhas.
A decisão gerou perplexidade e sentimento de traição entre aliados políticos. Já em solo americano, Flávio divulgou uma carta em que atacava a decisão judicial, reiterava acusações sem provas de fraude eleitoral e se autodenominava o verdadeiro presidente eleito. Diante da repercussão negativa, o termo foi alterado para líder do Brasil, e o senador pediu que a comunidade internacional não reconheça a reeleição de Lula, citando figuras históricas como Juan Guaidó e Charles de Gaulle para justificar sua intenção de liderar a oposição à distância.
A postura provocou desconforto em diferentes frentes. O coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), classificou a manifestação como um desabafo de alguém que se sente injustiçado. O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), declarou que a eleição acabou e que é preciso respeitar o resultado das urnas e olhar para a frente. O episódio é visto por analistas como um marco na tentativa de afastar gradativamente a direita da dependência do clã Bolsonaro.
Partidos de centro e centro-direita como União Brasil, PP, PSD, MDB e Podemos reconheceram a vitória de Lula e sinalizaram apoio à reeleição dos presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre. O presidente do União Brasil, Antonio Rueda, afirmou que a soberania popular se manifestou livremente e que é hora de unir o país. O presidente do Republicanos, Marcos Pereira, e o líder do PSD, Gilberto Kassab, também defenderam a necessidade de manter uma relação republicana e democrática com o governo federal.
No cenário político do clã, o patriarca Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar após condenação a 27 anos por tentativa de golpe de Estado. Eduardo Bolsonaro está autoexilado nos Estados Unidos desde março de 2025 e possui mandado de prisão por tentativa de obstrução da Justiça. Com a ausência dos três principais nomes do grupo, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, senadora mais votada da história do Distrito Federal, desponta como uma das principais herdeiras políticas da família, ao lado de novos arranjos que envolvem lideranças como Tarcísio de Freitas.
Além do impacto eleitoral, Flávio Bolsonaro deixou no Brasil pendências judiciais, incluindo um inquérito da Polícia Federal que investiga sua suposta relação como sócio oculto do advogado Willer Tomaz — também em Miami após investigações por lavagem de dinheiro —, além de apurações sobre o financiamento do filme Dark Horse com recursos ligados ao Banco Master. O senador nega as acusações. Nos Estados Unidos, o governo de Donald Trump confirmou a autorização para a entrada da família, com Trump declarando simpatia por Flávio, mas ressalvando que gosta de Lula e que não pretende intervir no cenário pós-eleitoral brasileiro.
