O colapso do Ueno Bank, instituição financeira digital do Paraguai da qual o presidente Santiago Peña era sócio indireto, gerou um sentimento de decepção entre empresários brasileiros que decidiram apostar no país vizinho. Apesar do impacto, a avaliação predominante no setor é de adotar uma postura de espera para acompanhar os desdobramentos da crise e a atuação das instituições locais.
Nos últimos anos, diversas empresas buscaram migrar operações do Brasil para o Paraguai atraídas por uma legislação pró-negócios promovida por Peña. No entanto, o recente escândalo envolvendo o banco — que contava com quase metade da população paraguaia na lista de clientes e administrava cerca de US$ 800 milhões em recursos públicos de fundos de previdência — mudou o tom do ambiente corporativo.
Segundo apuração do Banco Central do Paraguai, a crise de solvência envolveu uma simulação de venda de carteiras de créditos de US$ 74,4 milhões, com o uso de recursos do próprio Ueno para mascarar um rombo patrimonial. A instituição concentrava cerca de 10% dos depósitos locais, posicionando-se como o quinto maior banco do país. O episódio resultou nas renúncias do presidente Santiago Peña e do presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo Spalding, enquanto o Congresso busca barrar a saída do chefe do Executivo para formalizar um processo de impeachment.
Para Fabio Fustagno, presidente da Câmara de Comércio Paraguai-Brasil, o sentimento predominante nas conversas com o empresariado não é de temor, mas sim de decepção quanto ao envolvimento de Peña em uma crise em um país promovido como estável. Contudo, Fustagno aponta que não há relatos de empresas brasileiras planejando abandonar a produção no Paraguai. A orientação atual do setor privado é aguardar os próximos passos, defender a punição dos responsáveis e cobrar que os políticos se concentrem na política, separando a gestão econômica da gestão política.
Especialistas indicam que o risco sistêmico para as empresas brasileiras é considerado baixo, já que os aportes do setor produtivo não estavam concentrados no Ueno, cujo foco principal era o varejo e a pessoa física. No entanto, podem ocorrer dificuldades operacionais pontuais, como em transferências eletrônicas e folhas de pagamento de trabalhadores de baixa renda e servidores públicos. Outros bancos locais que mantinham posições na instituição buscaram liquidar seus valores preventivamente.
Por outro lado, Philipe Moura, especialista em geopolítica e professor da Fundação Dom Cabral (FDC), aponta que o pânico gerado pela capilaridade do Ueno é muito mais tangível do que o visto no caso do Banco Master no Brasil. Moura pondera que a crise assusta investidores institucionais no curto prazo e alerta que, caso as investigações apontem para um efeito cascata, novos sinais de alerta deverão ser ativados.
