O gabinete presidencial do Paraguai enfrenta uma forte onda de renúncias em meio a uma grave crise política e à iminência de um processo de impeachment contra o presidente Santiago Peña. De acordo com decretos divulgados na sexta-feira, 6, deixaram seus cargos o chefe do Gabinete Civil, Javier Giménez; o assessor jurídico da Presidência, Roberto Moreno; e o ministro do Interior, Enrique Riera.
Até o momento, apenas o substituto de Enrique Riera foi anunciado: trata-se do vice-ministro de Segurança Interna e ex-comandante da Polícia Nacional, Carlos Benítez. Informações da imprensa local apontam que o ex-ministro do Interior deve retornar à sua cadeira no Senado, cargo do qual havia se licenciado para integrar a pasta ministerial.
Santiago Peña permanece formalmente no posto de chefe de Estado porque o Congresso recusou a carta de renúncia apresentada por ele na quinta-feira, 5. Durante um debate bicameral, os parlamentares optaram por dar início aos trâmites para a sua destituição. Na sexta-feira, o mandatário apresentou um pedido para adiar o processo por 72 horas para organizar sua defesa, mas a solicitação foi rejeitada pelo Senado.
Crise no Ueno Bank e acusações contra Peña
A crise institucional foi desencadeada na terça-feira, quando o Banco Central decidiu intervir no banco digital Ueno e congelar as contas de aproximadamente 3 milhões de clientes, em um país com 6,1 milhões de habitantes, além de reter grandes recursos estatais depositados na instituição. O banco gerenciava cerca de US$ 850 milhões em fundos públicos, dos quais US$ 380 milhões pertenciam ao Instituto de Previdência Social.
O desdobramento rápido do caso resultou na queda e renúncia do presidente do Banco Central. No âmbito judicial, a justiça paraguaia iniciou investigações que culminaram na prisão de oito executivos da instituição financeira, entre eles Miguel Vázquez, dono do grupo controlador do qual Peña foi acionista.
O processo de impeachment aberto no Congresso aponta mau desempenho de funções. A oposição acusa o presidente de conflito de interesses e questiona a evolução de seu patrimônio. Peña, que assumiu a presidência em 2023 com mandato até 2028 e atuou anteriormente como ministro da Fazenda, possuía ações em um grupo controlador do Ueno Bank, das quais se desvinculou em março de 2025. Críticos o acusam de adotar decisões regulatórias favoráveis ao banco digital e de concentrar recursos previdenciários na instituição.
Senadores da oposição protocolaram na quinta-feira uma queixa criminal contra Peña por crimes como enriquecimento ilícito, tráfico de influência e gestão em benefício próprio. Paralelamente, a Procuradoria-Geral do Estado abriu uma nova investigação penal relacionada ao caso.
Protestos e repercussões políticas
Milhares de cidadãos tomaram as ruas de Assunção por três noites consecutivas, além de protestarem em localidades como Ciudad del Este. Os manifestantes exigem a restituição de seus recursos financeiros, a destituição de Peña e prisões decorrentes do escândalo.
Caso a renúncia do presidente tivesse sido aceita pelo Congresso, ele poderia manter o foro privilegiado, uma vez que a Constituição paraguaia prevê em seu Artigo 189 ("Das senadorias vitalícias") que ex-presidentes tornam-se senadores vitalícios sem direito a voto após o término do mandato. No entanto, com a decisão do Senado de prosseguir com o julgamento político, uma eventual condenação fará com que Peña perca o foro e enfrente um processo regular na Justiça comum.
