A Bolsa brasileira iniciou a semana registrando recorde e consolidou uma alta superior a 8% no período, marcando o melhor desempenho do Ibovespa desde março de 2020. Mesmo operando de lado entre terça-feira (6) e quinta-feira (8), os ganhos de 7,7% na segunda-feira (5) e de 1,38% na sexta-feira (9) mantiveram o mercado no campo positivo. Investidores mantiveram o foco monotemático, de modo que nem mesmo dados de inflação acima do esperado na sexta-feira conseguiram retirar o otimismo em relação às eleições.
Felipe Sant’Anna, especialista em investimentos do Grupo Axia Investing, aponta que a Bolsa está totalmente atrelada ao trade eleitoral. Segundo o analista, ao observar fatores externos — como dólar, petróleo e guerras — e indicadores internos — como inflação, emprego e rombo fiscal —, não há justificativa para uma mudança estrutural que levasse o índice à máxima histórica de forma repetida.
Agentes econômicos esperam de um eventual governo Flávio Bolsonaro (PL) reformas econômicas pró-mercado, com foco especial no ajuste das contas públicas. Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, destaca que o principal fator foi a reprecificação do risco político após o primeiro turno, com o mercado atribuindo maior peso a um cenário de controle de gastos públicos e redução de juros. Lima ressalta, contudo, que a redução de incertezas também atraiu capital estrangeiro para a Bolsa, viabilizou a recomposição de posições e provocou a queda dos juros futuros.
Com essa melhora no ânimo, bancos internacionais de investimento começaram a revisar estratégias para dar maior destaque ao Brasil em suas carteiras. O Morgan Stanley projeta o Ibovespa alcançando até 250 mil pontos. No entanto, para sustentar essa valorização, analistas apontam que a expectativa de ajuste fiscal precisa se transformar em medidas concretas capazes de reduzir o risco da dívida pública. Lima adverte que o principal risco é a frustração dessas expectativas diante de uma inflação pressionada, petróleo elevado e incertezas eleitorais.
Raphael “Rafi” Figueredo, estrategista de ações da XP, aponta que a descompressão de prêmio de risco, impulsionada pelo fechamento dos juros altos, melhorou as condições de preço de mercado, beneficiando principalmente empresas cíclicas locais e small caps que estavam descontadas e depreciadas. Com as taxas de juros futuros longas recuando para 10% ou menos, Figueredo estima que o Ibovespa possa chegar a até 260 mil pontos, embora ressalte que a intensidade da queda dependerá do choque de credibilidade, do resultado do segundo turno e do programa de reformas subsequente.
Apesar do otimismo, especialistas alertam para sinais de euforia e exageros pontuais. Felipe Sant’Anna pondera que o Brasil costuma ser palco para trades em que o capital entra, volatiliza e depois retorna para casa, embora acredite que o dinheiro estrangeiro possa ser alocado de forma mais estrutural caso a redução de incertezas se concretize. Sidney Lima aponta que algumas ações, como a Magazine Luiza, acumularam valorização superior a 60% na semana, subindo muito mais rápido do que os fundamentos justificam. Para Gabriel Felix, especialista de alocação da Blue3 Investimentos, o patamar atual já embute boa parte das expectativas, que precisarão se consolidar no dia 25 de outubro com a definição do segundo turno e a comprovação dos compromissos do novo governo.
