O presidente da França, Emmanuel Macron, denunciou nesta quinta-feira, 22, atos sediciosos atribuídos a grupos de extrema esquerda. Segundo o chefe de Estado, essas facções têm como objetivo derrubar a república, após os episódios de violência e saques registrados durante manifestações no último fim de semana. A declaração foi feita depois de uma reunião convocada por Macron no Palácio do Eliseu com os serviços de inteligência, criticados por não terem antecipado a magnitude da mobilização.
No sábado, 17, uma marcha nacional reuniu cerca de meio milhão de pessoas contra o custo de vida, somando-se a um movimento estudantil por melhorias na educação pública que tomou o país há um mês, mas que acabou degenerando em fúria urbana. Diversas cidades francesas enfrentaram confrontos e saques provocados por casseurs, manifestantes mascarados adeptos de táticas black bloc que eclipsaram os protestos pacíficos dos estudantes. Uma grande parte da prefeitura de Limoges, edifício inaugurado em 1883, foi destruída pelas chamas durante os atos de 17 de outubro. O Ministério Público informou que há dois detidos em conexão com esses episódios, sendo um deles um idoso de 66 anos, e centenas de comércios foram saqueados pelo país.
Após o fim de semana, o governo francês decretou toque de recolher das 23h00 às 5h00 em dezenas de cidades, incluindo Paris e Lyon, medida que já foi estendida por três noites. Nesta quinta-feira, Macron comunicou que autoridades locais e municipais ganharam autonomia para implementar restrições próprias, como a proibição de aglomerações públicas.
O presidente francês anunciou a proibição total de protestos não organizados por sindicatos. Por outro lado, as manifestações consideradas legítimas serão avaliadas conforme as leis e as autoridades, desde que haja garantia de segurança, o que pode envolver mudanças de trajetos e imposição de exigências adicionais pelo governo. Macron declarou que o sistema judiciário está plenamente mobilizado e apoiou o pedido do Ministério da Justiça por punições severas aos envolvidos em atos de violência e vandalismo.
O mandatário também admitiu falhas na resposta aos protestos do último fim de semana devido a um elemento surpresa, apontando a necessidade de absorver essas lições para as manifestações agendadas para o próximo fim de semana. Nesta quinta-feira, a prefeitura de Paris autorizou a principal marcha na capital para este sábado, 23, da Praça da Bastilha à Place de la Nation. Contudo, um ato separado articulado pelo coletivo estudantil Interfac e pelo movimento dos coletes amarelos, planejado da Bastilha até a Place de l’Opéra, será proibido, conforme o jornal Le Monde.
Em Lyon, a terceira maior cidade francesa, além de Rouen e Toulon, as autoridades vetaram todas as manifestações previstas para o sábado, uma medida classificada como liberticida pela oposição. O prefeito de Lyon, Grégory Doucet, relatou que a cidade sofreu horas de caos nos distúrbios passados, com cerca de 150 a 200 lojas saqueadas, um posto de turismo incendiado e aproximadamente 200 pessoas presas pela polícia.
Em âmbito nacional, o Ministério do Interior informou que o efetivo de segurança será 20% maior do que no fim de semana anterior, contando com reforços do Exército, veículos blindados, tropas de elite da polícia, a Gendarmaria Nacional e a missão Sentinelle, formada por militares dedicados à vigilância de áreas movimentadas e monumentos. Os protestos sacodem o governo a poucos meses das eleições presidenciais de abril e maio, pleito para o qual Macron não pode se candidatar e no qual a ultradireitista Marine Le Pen desponta como favorita nas pesquisas.
