O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou em entrevista à CNN, a partir de Kyiv na quinta-feira, que os recentes atritos com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não têm motivação pessoal. A declaração ocorre após uma ruptura amarga entre os dois líderes gerar temores em território ucraniano de que Washington estaria se alinhando novamente à Rússia.
Os laços bilaterais sofreram forte deterioração nas últimas semanas após Trump anunciar um acordo para comprar combustível russo e suspender algumas sanções contra Moscou — medida que atraiu críticas inclusive do próprio partido do republicano. Para Zelensky, Trump estaria "do lado errado da história", e aliviar as sanções servirá apenas para fortalecer o presidente russo, Vladimir Putin.
"Minha atitude em relação a Putin é muito clara. Acho que se levantarmos as sanções, vamos torná-lo mais forte. Não é algo pessoal entre mim e o presidente Trump, e é claro que sou contra qualquer levantamento de sanções", declarou o líder ucraniano.
As declarações de Zelensky foram dadas em meio a uma nova ofensiva diplomática conduzida por enviados de Trump para tentar solucionar o conflito, que já dura quatro anos e meio. Na quarta-feira, o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, reuniu-se por três horas com Putin em São Petersburgo, após ter conversado com Zelensky na Noruega um dia antes. Witkoff descreveu o líder russo como um "humanitário" devido à libertação do prisioneiro americano Stephen Hubbard, de 74 anos. Em coletiva, Trump defendeu que o endurecimento de sanções impediria a libertação de Hubbard e comprometeria negociações delicadas de paz.
Desconfiança em relação a Putin e exigências territoriais
Apesar de classificar sua reunião na capital norueguesa, Oslo, como produtiva, Zelensky demonstrou ceticismo quanto ao compromisso de Putin com a paz. Após o encontro com Witkoff, o Kremlin concordou com novas conversações em novembro, mas sem detalhar planos concretos.
"Putin está jogando, sabe, ele é um jogador", disse o presidente ucraniano. "É uma pena porque ele joga com a vida de outras pessoas, e claro que ele não quer (parar a guerra). Então o que queremos de nossos parceiros (é) não dar a ele a possibilidade de ficar mais forte e nos destruir."
Enquanto Trump afirmou na quarta-feira que seu governo está "mais próximo do que nunca" de solucionar o conflito, a Rússia respondeu lançando centenas de drones e mísseis balísticos contra o país vizinho durante a noite. Putin mantém exigências maximalistas, incluindo a retenção de territórios ucranianos. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou que o centro da disputa atual recae sobre o destino do Donbas, a região leste ucraniana controlada majoritariamente por forças russas, mencionando que ideias criativas foram propostas para sanar essa divergência.
Possibilidade de congelamento de linhas e limitações militares
Zelensky abriu margem para a possibilidade de congelar as atuais linhas de frente para viabilizar um "cessar-fogo, parar com as mortes, sentar e conversar". No entanto, ele reforçou que a entrega de terras ucranianas à Rússia é uma alternativa inaceitável.
"Nossa terra é muito importante porque é sobre pessoas. Não é sobre quilômetros", pontuou. "Muitas pessoas morreram defendendo esta terra, defendendo nossa independência, nosso país. Ninguém vai reconhecer esses territórios, que estão temporariamente ocupados, como territórios russos, e acho que a Rússia entende isso."
O líder ucraniano também abordou restrições recentes de suporte tecnológico e militar por parte dos EUA, como a limitação de inteligência sobre mísseis e atrasos em serviços da Starlink. Embora o compartilhamento de inteligência tenha sido restabelecido no início da semana, Zelensky apontou que o Starshield — serviço militar da SpaceX — ainda não teve o funcionamento integral retomado.
Diante de uma escassez crítica de mísseis interceptores e de um apoio ainda insuficiente em defesas aéreas por parte de aliados europeus, Zelensky resumiu as principais demandas atuais de seu país: manter as sanções contra Putin e fornecer mísseis de melhor qualidade para a defesa nacional.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/tensoes-com-trump-nao-sao-pessoais-diz-zelensky-a-cnn/
