As empresas listadas na Bolsa de Valores brasileira registraram uma perda de cerca de R$ 873 bilhões em valor de mercado durante a última semana. O movimento ocorreu na sequência do resultado do segundo turno das eleições presidenciais, que definiu a vitória de Lula para mais um mandato de quatro anos.
Em entrevista ao programa CNN Money, o especialista e sócio da Valor Investimentos, Daniel Teles, avaliou o cenário econômico e as perspectivas para o mercado até o encerramento do ano. De acordo com ele, a retração observada constitui uma reação exagerada. O analista pontuou que, no decorrer dos últimos três meses, a Bolsa passou por intensa especulação em torno do chamado trade eleitoral, fazendo com que o índice se aproximasse de 210 mil pontos logo após o primeiro término da votação.
“É uma reação extremamente exagerada”, declarou Teles. Com o desfecho do segundo turno, grande parte desse montante sofreu correção, conduzindo o Ibovespa a operar na faixa de 168 mil pontos.
Saída de investidores institucionais e visão sobre os fundamentos
O especialista detalhou que o investidor institucional havia posicionado seus recursos no Brasil na expectativa de um resultado eleitoral diferente, apostando que tal desfecho traria vantagens para as contas públicas e asseguraria um controle mais efetivo da proporção entre dívida e PIB. Diante do resultado oposto às projeções, esses investidores decidiram desfazer suas posições devido à apreensão em relação a um novo quadriênio do governo Lula.
“O institucional acaba entendendo que o risco fiscal é muito grande e que não compensa”, explicou o sócio da Valor Investimentos.
Apesar disso, Daniel Teles ponderou que as companhias brasileiras, de modo geral, mantêm a capacidade de gerar receitas e entregar resultados independentemente do resultado nas urnas. O analista destacou que o Ibovespa, cotado na casa de oito vezes o preço pelo lucro, encontra-se abaixo de sua média histórica, o que indicaria que a Bolsa está barata.
“Quando você compra ações de uma empresa, você está escolhendo uma companhia para se tornar sócio, e essa companhia não perdeu a sua qualidade de entregar resultado simplesmente por conta da questão eleitoral”, pontuou.
Perspectivas desfavoráveis e pressão sobre os juros e o câmbio
Questionado a respeito de eventuais perspectivas de recuperação para o mercado ainda em 2026, Teles adotou tom categórico ao afirmar: “No meu ponto de vista, não.”
O especialista enumerou elementos que configuram um ambiente estruturalmente adverso, destacando a disparada dos juros futuros na última semana, a escassez de orientações firmes por parte do governo acerca da responsabilidade fiscal e a presença de uma dívida firmada durante o período de campanha estimada em cerca de R$ 400 bilhões.
O analista mencionou ainda que instituições financeiras de grande porte já vinham reavaliando suas previsões para a taxa Selic, antevendo que a reunião subsequente do Banco Central poderia não concretizar o corte de juros aguardado pelo mercado. Ademais, a disponibilização de crédito subsidiado e de menor qualidade tenderia a forçar a autoridade monetária a interromper o ciclo de queda da taxa básica de juros.
“Pessoas próximas ao governo vêm sinalizando que não existe nenhum tipo de preocupação com o fiscal”, declarou o especialista.
A fuga de capital da economia nacional também repercutiu sobre o câmbio, fazendo com que a cotação do dólar passasse de aproximadamente R$ 4,99, antes do segundo turno, para o patamar de R$ 5,30. Conforme Teles, tal variação eleva a pressão inflacionária e complica a conjuntura econômica geral. Os recursos retirados do país tendem a migrar para os Estados Unidos, direcionando-se à renda fixa americana e a empresas de inteligência artificial, além de outros mercados emergentes.
Entre os segmentos mais vulneráveis ao contexto de juros elevados, o especialista apontou o varejo e a construção civil, setores fortemente vinculados ao crédito. “Todo setor que depender de alguma forma da trajetória do mercado de juros acaba sofrendo mais”, concluiu Teles, avaliando que o país deverá conviver por mais quatro anos com a Selic em patamares superiores à média histórica e às estimativas prévias do mercado, impulsionada por gastos públicos elevados e subsídios ao crédito.
