Após o resultado das eleições de 2026, publicações de políticos e influenciadores digitais nas redes sociais passaram a incentivar a demissão de trabalhadores, a recusa de contratação e o boicote a estabelecimentos associados à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A onda de retaliação política coincide com o aumento de denúncias recebidas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT).
Em 2026, o órgão registrou 2.177 denúncias de assédio eleitoral, sendo que mais de 427 foram apresentadas após o término da eleição presidencial, o que representa cerca de 19,6% do total. O procurador do Trabalho Igor Sousa Gonçalves, coordenador nacional da Coordigualdade, afirmou que o MPT vê com preocupação a tentativa de transformar divergências políticas em critérios para a manutenção, contratação ou demissão de empregados.
Entre os casos rastreados, a vereadora de Londrina Jessica Ramos Moreno, conhecida como Jessicão (PL), publicou uma mensagem explícita direcionada a empregadores: "Você tem uma empregada que é petista? Demita! Tem um funcionário que é petista? Demita!". A influenciadora Josiflora, com mais de 1 milhão de seguidores no Instagram, orientou o público a não ajudar eleitores do PT na fila da regulação ou em pedidos de emprego, além de sugerir em vídeo que não se ofereça água a essas pessoas. Já o empresário e influenciador Rapha Hanzol relatou que demitiria sua melhor funcionária por questões de comportamento e alinhamento com a cultura da empresa.
A deputada estadual do Rio de Janeiro Índia Armelau (PL) também publicou uma mensagem direcionada a empresários afirmando para não contratarem quem odeia quem gera empregos, acompanhada da frase "Eu não tenho dúvida de que fomos roubados. Ponto". Na terça-feira (27), o MPT-RJ pediu R$ 500 mil em indenização contra a deputada por incentivar demissões por motivação política. Outros nomes, como as influenciadoras Livian Weber Asmar — que divulgou uma lista de restaurantes de São Paulo a serem evitados por conservadores — e Natássia Chamelete, também anunciaram campanhas de boicote a serviços prestados por profissionais petistas.
Base legal e consequências
Especialistas e o MPT reforçam que divergências políticas não podem ser utilizadas como justificativa para restringir oportunidades profissionais ou rescindir contratos de trabalho. A principal base legal aplicada é a Lei nº 9.029, de 1995, que proíbe práticas discriminatórias para acesso e manutenção do emprego, além de garantias constitucionais de liberdade de expressão e da Convenção nº 111 da OIT. A advogada trabalhista Thaluana Aves ressalta que a preferência política é um dado pessoal sensível protegido pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Caso a Justiça do Trabalho comprove uma demissão motivada por discriminação política, o trabalhador pode ser reintegrado com o pagamento das remunerações do período de afastamento ou optar por indenização equivalente ao dobro da remuneração do período, além de reparação por danos morais. Segundo o MPT, terceiros que utilizam as redes sociais para incitar empresas a demitirem ou perseguirem funcionários também podem ser responsabilizados.
O que diz o MPT sobre boicotes e denúncias
O procurador Igor Sousa Gonçalves esclarece que campanhas de boicote a marcas ou estabelecimentos comerciais realizadas por consumidores, em regra, não são alvo de atuação do MPT, uma vez que os clientes possuem liberdade para decidir onde comprar. A atuação do órgão ocorre estritamente quando há interferência indevida e discriminatória nas relações de trabalho.
O MPT orienta que trabalhadores que sofrerem ameaças, pressões ou perseguições políticas guardem provas como mensagens, áudios, prints e nomes de testemunhas. As denúncias podem ser realizadas de forma remota e sigilosa por meio do site oficial do órgão (www.mpt.mp.br) ou presencialmente em qualquer unidade.
