Apesar de o Brasil ter deixado oficialmente o Mapa da Fome em julho de 2025, o país ainda enfrenta o desafio de garantir o acesso a uma nutrição adequada para uma parcela expressiva de sua população. De acordo com o relatório "O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (Sofi)", publicado em julho pela FAO, agência da ONU para a Alimentação e a Agricultura, 44,8 milhões de brasileiros não possuem renda suficiente para manter uma alimentação saudável, o equivalente a cerca de um quinto da população.
O levantamento aponta que esses cidadãos não conseguem arcar com o custo de uma dieta composta por cereais, frutas, verduras, leguminosas e proteínas nas quantidades recomendadas. Além disso, entre 2023 e 2025, 20,3 milhões de pessoas enfrentaram insegurança alimentar moderada ou grave, não tendo acesso regular a alimentos nutritivos em quantidade adequada, uma queda em relação aos 39,7 milhões registrados entre 2021 e 2023.
Perfil dos afetados e barreiras de acesso
Segundo a pesquisa, os grupos mais vulneráveis estão em domicílios chefiados por mulheres, com recorte racial para mulheres negras, e concentrados nas regiões Norte e Nordeste. Especialistas apontam que a precariedade do trabalho, marcada por baixos salários, informalidade e instabilidade, como no caso de trabalhadoras domésticas, intensifica o problema.
O custo diário de uma alimentação saudável no país subiu de 3,97 dólares internacionais em 2021 para 4,89 dólares internacionais em 2025. Conforme avaliação de especialistas, a valorização recente do salário mínimo ainda não acompanhou a alta inflacionária dos alimentos, especialmente dos itens frescos e carnes, que encarecem mais rápido devido a exigências de transporte refrigerado e armazenagem especial. Em contrapartida, os ultraprocessados mantêm preços inferiores por utilizarem matérias-primas abundantes no país, como a soja e derivados.
Desafios climáticos e distribuição
Eventos climáticos extremos, como secas e enchentes, afetam a safra de hortaliças de ciclo curto, provocando oscilações e encarecendo rapidamente os produtos. Adicionalmente, fatores geopolíticos e o mercado internacional impactam insumos como combustíveis e fertilizantes importados, elevando os custos de produção e transporte.
Especialistas também apontam a desigualdade nos investimentos em pesquisa agropecuária, historicamente voltada para commodities de exportação em detrimento de hortaliças e alimentos básicos. No cenário urbano, o fenômeno dos desertos e pântanos alimentares — locais com escassez de produtos frescos ou ampla predominância de ultraprocessados — afeta milhões de moradores nas periferias das grandes cidades.
Estratégias e políticas públicas
Para mitigar a vulnerabilidade e evitar retrocessos ao cenário registrado em 2022 — quando o país contava com 61,3 milhões de pessoas em insegurança alimentar e 8,6 milhões de subnutridos sob a gestão de Jair Bolsonaro —, defende-se a continuidade e ampliação de políticas de renda, fortalecimento da agricultura familiar e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
O governo federal tem buscado implementar o Protocolo Brasil Sem Fome, coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, visando integrar serviços de saúde, assistência social e segurança alimentar para realizar buscas ativas e acompanhar de forma contínua as famílias em situação de extrema vulnerabilidade.
