Milhares de cidadãos paraguaios tomaram as ruas de Assunção nesta terça-feira, 3, para exigir a liberação de seus recursos retidos no Ueno Bank, instituição que atende cerca de 3 milhões de clientes. Durante os protestos na capital, manifestantes exibiram cartazes com pedidos de impeachment contra o presidente Santi Peña e enfrentaram longas filas em agências bancárias na tentativa de reaver valores depositados.
A crise foi desencadeada após uma intervenção realizada pelo Banco Central do Paraguai na mesma terça-feira, medida que suspendeu os serviços do banco e deixou correntistas sem acesso imediato aos próprios fundos. Quase metade da população paraguaia, estimada em 6,4 milhões de habitantes, possui contas na instituição financeira, que também administra verbas estatais e valores milionários de fundos de pensão. O Banco Central informou que a intervenção buscou proteger os depositantes e preservar a estabilidade financeira, garantindo que correntistas com recursos bloqueados recebam um pagamento inicial de até 10 milhões de guaranis, o equivalente a aproximadamente R$ 9.200.
Horas após a medida, o presidente do órgão regulador, Carlos Carvallo, renunciou ao cargo. Carvallo havia presidido o Ueno antes de assumir o comando do Banco Central em 2023. Antes de sua saída ser formalizada por meio de uma nota enviada ao Senado e ao Poder Executivo, o presidente Santi Peña já havia exigido sua demissão em uma publicação na rede social X devido aos fatos registrados ao longo do dia.
A Justiça do Paraguai emitiu ordens de prisão para oito diretores da instituição. Entre eles está o presidente do banco, Miguel Vázquez, que se entregou à polícia durante a tarde de terça-feira. O comissário Hugo Grance, chefe do Departamento de Investigações, declarou à imprensa que Vázquez ficará alojado em uma cela de segurança até que o Ministério Público determine seu destino final.
O impacto da quebra do banco digital gerou revolta entre os pequenos poupadores, que enfrentavam bloqueios em transações desde a última segunda-feira, 2. Entre os manifestantes estava Marcelino Vergara, de 68 anos, que relatou à agência AFP ter perdido as economias de sua vida, ficando com apenas 8 mil guaranis (cerca de R$ 7,35).
O senador oposicionista Rafael Filizzola afirmou à AFP que o prejuízo total da crise bancária ultrapassa US$ 3 bilhões, o equivalente a R$ 16,47 bilhões. Segundo o parlamentar, a oposição trabalha na elaboração de um texto acusatório para viabilizar um processo de impeachment contra Santi Peña. Filizzola alegou que o presidente tem ligação direta com o escândalo, afirmando que o mandatário foi acionista do grupo controlador do banco antes de assumir o governo em 2023, tendo renunciado à participação posteriormente sob pressão, e que o esquema teria contado com o direcionamento de recursos públicos e economias do Estado para a instituição. Na sequência dos desdobramentos, Peña cancelou uma viagem oficial a Madri, onde participaria da 30ª Cúpula Ibero-Americana.
