O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola avaliou, em entrevista ao CNN Money, que a autoridade monetária adotou um tom menos incisivo ao tratar da política fiscal do governo no comunicado divulgado após a decisão do Copom (Comitê de Política Monetária). Segundo o economista, em momentos anteriores, a instituição costumava ressaltar com maior ênfase a necessidade de uma política fiscal alinhada à monetária. “O Banco Central foi menos explícito em apontar o dedo para a política fiscal”, declarou.
Loyola apontou que, nos últimos meses, enquanto o Banco Central buscava conter a demanda para controlar a inflação, medidas fiscais implementadas pelo governo — sobretudo no período eleitoral — caminharam na direção oposta, estimulando a atividade econômica e impondo dificuldades adicionais ao trabalho da autarquia.
Inflação, expectativas e dívida pública
O economista explicou que as expectativas inflacionárias impactam diretamente a formação de preços, uma vez que agentes econômicos e consumidores tendem a projetar a inflação futura em suas decisões. Ele também mencionou a inércia inflacionária brasileira e ressaltou que o país segue crescendo acima de sua capacidade potencial, o que desafia o controle de preços.
Questionado sobre a proporção de títulos da dívida pública indexados à taxa Selic, estimada em cerca de 53%, Loyola afirmou que o ciclo de juros elevados e a expansão da dívida decorrem principalmente da dificuldade do governo em gerar resultados primários equilibrados. “O grande problema no Brasil é que você tem uma dificuldade de gestão do resultado primário”, disse, acrescentando que, sem uma perspectiva concreta de reversão do déficit primário efetivo, os investidores exigirão prêmios de risco maiores, elevando os juros de equilíbrio e o custo da dívida.
Metas de inflação e cenário externo
Sobre uma eventual alteração na meta de inflação, Loyola posicionou-se de forma contrária, argumentando que a medida traz mais riscos do que benefícios e pode desancorar as expectativas do mercado. Em relação a medidas macroprudenciais para o crédito, o ex-presidente avaliou que a eficácia é limitada no país devido ao crédito direcionado e a financiamentos informais, sugerindo a revisão de recursos do FGTS e de outros fundos.
No âmbito externo, o economista afirmou que o aumento de juros em outras nações prejudica o Brasil no curto prazo ao tornar investidores estrangeiros mais cautelosos com emergentes, embora ajude a evitar desequilíbrios futuros. Ele também destacou que a alta nos preços de energia pressiona a inflação global e representa um desafio internacional relevante.
