A decisão do Banco Central de manter a taxa Selic em 13,75% ao ano prolonga o período de crédito caro no país e eleva as apreensões em relação ao crescimento econômico. A interrupção nos cortes ocorreu após a piora nas expectativas inflacionárias, a alta da moeda norte-americana e as incertezas fiscais decorrentes da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Com o patamar atual, o país segue na liderança global dos juros reais descontada a inflação esperada. Dados de levantamento das consultorias MoneYou e Lev Intelligence apontam que a taxa brasileira atingiu 9,49% ao ano, superando os índices observados na Turquia (7,77%), na Argentina (6,80%) e na Rússia (6,57%). O Comitê de Política Monetária (Copom) interrompeu por unanimidade uma sequência de cinco reduções iniciadas em março, refletindo o impasse entre conter o encarecimento dos preços e evitar uma desaceleração acentuada da atividade econômica.
Inflação e projeções do mercado
De acordo com o Boletim Focus, a previsão para a inflação de 2026 subiu para 5,22%, enquanto a estimativa para 2027 alcançou 4,76%. Os dois índices ficam acima do teto de 4,5% estipulado pelo intervalo de tolerância da meta, cujo centro é de 3%.
Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital, pontua que a autoridade monetária lida com uma conjuntura desfavorável de inflação persistente, incerteza econômica e atividade em desaceleração. Segundo ele, a expectativa é de manutenção da Selic em 13,75% na reunião de dezembro, com a pausa estendendo-se até uma melhora nas projeções inflacionárias, podendo abrir espaço para novas altas em 2027 caso o descolamento da meta persista.
Josias Bento, especialista em mercado de capitais e sócio da GT Capital, avalia a medida como correta devido à deterioração das expectativas. Para ele, o comunicado do Copom foi duro e coerente, apontando também para a necessidade de previsibilidade fiscal para evitar que a Bolsa continue sob pressão e os juros longos fiquem elevados. No cenário externo, conflitos no Oriente Médio e variações no preço do petróleo trazem novos riscos inflacionários, somados aos juros restritivos em economias desenvolvidas.
Repercussão na indústria e endividamento
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) criticou a decisão e avalia que o Banco Central poderia prosseguir com os cortes sem prejudicar o controle de preços. O presidente da entidade, Ricardo Alban, aponta que o patamar atual prejudica o crédito, os investimentos e a atividade econômica. A CNI calcula o juro real em cerca de 8,4%, frente a uma taxa neutra de 5%. Indicadores do setor mostram que, em setembro, os estoques indesejados atingiram o patamar mais alto desde outubro de 2023, enquanto a avaliação de margens de lucro caiu para o pior nível desde a pandemia.
A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) também reprovou a pausa, ressaltando que a indústria de transformação acumula retração de 0,1% no ano. Paralelamente, o comprometimento da renda das famílias com dívidas atingiu 29% em agosto, maior marca em 21 anos, enquanto o endividamento totalizou 50,1% da renda acumulada em 12 meses. O comércio reflete o enfraquecimento com vendas em agosto cerca de 1% abaixo do patamar de janeiro.
Diante do cenário de restrição e da incerteza fiscal que eleva as exigências de remuneração para financiar o governo, analistas e gestores como Rafael Pastorello, do Banco Sofisa, indicam que a prudência permanece necessária, com atenção voltada a oportunidades em títulos públicos prefixados e atrelados à inflação enquanto o ambiente macroeconômico não apresentar sinais consistentes de melhora.
