Há 25 anos, o Brasil enfrentava um racionamento de energia que parou o país. Agora, o próximo governo herdará o problema inverso: um apagão às avessas, caracterizado pela sobra de energia limpa e pela falta de locais para armazená-la, conforme aponta artigo assinado por Bárbara Rubim, presidente do Conselho de Administração da Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica).
Somente em 2025, os cortes na geração renovável decorrentes de restrições operativas do sistema, conhecidos como curtailment, ultrapassaram R$ 6 bilhões em desperdício econômico. Enquanto isso, nos períodos de maior demanda, o sistema manteve o acionamento de termelétricas mais caras e poluentes. A energia solar tornou-se a segunda maior fonte da matriz elétrica brasileira em uma década, a eólica se consolidou e novas demandas surgiram, mas o planejamento não acompanhou essa evolução.
A resposta central para esse cenário é o armazenamento por meio de bancos de baterias, capazes de absorver o excedente cortado e devolvê-lo quando a demanda crescer. Diretrizes para o primeiro leilão de reserva de capacidade por meio de baterias, previsto para 2026, já estão estabelecidas, mas o setor aponta a necessidade de uma política contínua com leilões anuais de capacidade para o ciclo 2027-2030.
A Absolar apresentou às candidaturas uma agenda que inclui:
- Contratação de pelo menos 8 gigawatts (GW) de sistemas de armazenamento;
- Expansão de 18 GW em grandes usinas solares;
- Ampliação do acesso à energia limpa para 3 milhões de unidades consumidoras até 2030, sendo 500 mil delas em sistemas isolados.
Como obstáculo, o setor aponta que a carga tributária sobre os sistemas de armazenamento chega a 84,8%. Além das baterias, a expansão coordenada das redes de transmissão é apontada como decisiva para conectar as regiões produtoras aos novos centros de consumo, impulsionando investimentos em data centers, hidrogênio verde e eletrificação dos transportes.
O artigo destaca ainda a face social do problema, visto que milhões de famílias e pequenos negócios convivem com fornecimento precário e contas de luz elevadas, enquanto áreas isoladas dependem de geradores a diesel caros e poluentes. A transição energética exigirá que armazenamento, transmissão, digitalização e gestão da demanda sejam tratados de forma integrada pelo próximo ciclo de governo.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/infra/o-apagao-as-avessas-que-o-proximo-governo-vai-herdar/
