A corrida eleitoral de 2026 para o Palácio do Planalto destaca-se pelo forte peso do sentimento de rejeição entre o eleitorado brasileiro. De acordo com levantamento divulgado na quarta-feira (21) pelo instituto Quaest, a quatro dias do pleito, 52% dos eleitores declararam que não votariam de jeito nenhum no senador Flávio Bolsonaro (PL), enquanto 47% afirmaram o mesmo em relação ao presidente Lula (PT). Os dois presidenciáveis chegam à reta final empatados tecnicamente dentro da margem de erro, com Flávio registrando 45% das intenções de voto contra 44% do petista.
Especialistas apontam que campanhas baseadas primordialmente no repúdio ao adversário prenunciam uma tensão crônica, dinâmica recorrente no processo político brasileiro nos últimos doze anos. Para o diretor-executivo da RealTime Big Data, Lucas Thut Sahd, lulistas e bolsonaristas convictos correspondem a fatias iguais de cerca de 20% do eleitorado, enquanto os 60% restantes são eleitores pendulares que frequentemente migram para o lado do candidato visto como o "mal menor". A rodada mais recente da Quaest indicou que 44% dos entrevistados têm mais medo do retorno da família Bolsonaro ao poder, ao passo que 42% se sentem assustados com a continuidade de Lula no governo.
Na semana anterior, pesquisas investigaram a motivação do voto no primeiro turno: entre os eleitores de Lula, 23% afirmaram que a escolha ocorreu para impedir o retorno do clã Bolsonaro, enquanto 42% dos eleitores de Flávio tinham o objetivo de afastar o presidente e o PT. Para atrair o eleitorado não identificado com os dois grupos, as campanhas têm recorrido à disseminação de boatos e medo. A campanha petista divulgou que o candidato do PL cortaria programas sociais como o Bolsa Família, ao passo que a campanha de Flávio propagou insinuações de que o atual presidente fecharia igrejas e templos religiosos.
O cientista político Jorge Mizael, sócio da Metapolítica Consultoria, avalia que uma vitória sustentada na rejeição do oponente resulta em um mandato com baixo capital político, deixando o vencedor com margem reduzida para exigir sacrifícios da sociedade e ainda mais dependente do Congresso. Além disso, o clima de repúdio mexe com a percepção social, ensinando o eleitor a enxergar o opositor como ameaça, alimentando um ciclo de oposição sem diálogo e desconfiança nas instituições.
Em paralelo aos ataques à reputação do oponente — evidentes no primeiro debate realizado pela TV Bandeirantes —, as campanhas também atuam para conter danos em redutos de resistência. O presidente Lula tem buscado mitigar sua imagem negativa entre eleitores evangélicos, divulgando carta com medidas de interesse dos fiéis, como a proibição das bets e o fim da escala 6x1. Por sua vez, Flávio Bolsonaro herdou alta rejeição entre as mulheres, enfrentando um momento delicado com a crise envolvendo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, embora tenha conseguido ampliar sua vantagem entre o eleitorado masculino.
Com a forte polarização e a expressiva desaprovação de ambos os lados, o próximo presidente assumirá o cargo em janeiro carregando um fardo político considerável, independentemente de quem vença a disputa nas urnas.
