Dados recentes do Tesouro Nacional apontam que investidores não residentes mantêm 886,3 bilhões de reais aplicados em títulos da dívida pública federal interna brasileira, o equivalente a 9,91% do estoque. O montante representa um aumento em relação a julho, quando o volume registrado era de 879,07 bilhões de reais, correspondendo a 9,82%. Os números demonstram que, em vez de fuga no período recente, houve ampliação da participação estrangeira.
O valor não mensura o tamanho do yen carry trade no país, visto que a maior parte não possui relação direta com operações lastreadas na moeda japonesa. Contudo, o montante ilustra a dimensão de uma das vias pelas quais transformações no custo do dinheiro no exterior impactam o Brasil. Outra via de transmissão ocorre por meio do câmbio.
Conforme levantamento trienal do Banco de Compensações Internacionais (BIS), negociações cambiais de balcão envolvendo o real movimentavam cerca de 90 bilhões de dólares por dia em abril de 2025. Desse total, aproximadamente 61 bilhões de dólares correspondiam a operações a termo (outright forwards), enquanto o mercado à vista somava 15 bilhões de dólares. Desse modo, cerca de dois terços desse mercado global com o real ocorriam em contratos de liquidação futura, espaço propício para estratégias de carry, proteção cambial e alavancagem sem rastreio direto de transferências de recursos do Japão.
Adicionalmente, o mercado internacional de derivativos de juros denominados em real registrou forte expansão, com giro médio diário saltando de menos de 2 bilhões de dólares em 2022 para 9,2 bilhões de dólares em abril de 2025, conforme o BIS.
Comportamento de fundos e liquidez do mercado brasileiro
Em setembro, dados monitorados pela CFTC americana indicaram que fundos alavancados realizaram uma virada equivalente a mais de 72 mil contratos em iene no período de uma semana, reduzindo em cerca de 40% sua posição líquida comprada em real em duas semanas. Um padrão semelhante ocorreu em agosto de 2024, durante o choque do yen carry trade, quando posições vendidas em iene recuaram enquanto as apostas contra a moeda brasileira subiram.
O mercado nacional atrai grandes investidores globais tanto para a assunção quanto para o desfazimento de riscos devido à sua liquidez. Conforme apontado pelo Tesouro Nacional ao Radar Econômico, a fatia de não residentes na dívida pública mantém-se estável próximo de 10% desde 2020. O Tesouro também destacou como fatores de proteção a base doméstica de investidores e uma reserva de liquidez de 1,208 trilhão de reais em agosto, montante suficiente para cobrir cerca de 7,2 meses de vencimentos.
Cenário doméstico e perspectiva de gestores
Fatores internos também influenciam os ativos. O chamado Flávio Trade gerou valorização histórica após o primeiro turno da eleição presidencial. Em 5 de outubro, o real valorizou-se mais de 4% frente ao dólar — o maior ganho diário em quatro anos —, enquanto o índice da Bolsa avançou 7,7%, alcançando novo recorde.
Grandes gestores mantêm avaliações favoráveis sobre o país. Grégoire Pesques, diretor de investimentos de estratégias de renda fixa da Amundi, avalia que os juros brasileiros acima de 14% nominais e próximos de 9% reais preservam uma relação atraente entre retorno e risco. Pramol Dhawan, chefe de gestão de portfólios de mercados emergentes da PIMCO, recomenda a observação conjunta da alta de juros americanos, do risco cambial e do prêmio de títulos locais, ressaltando que o caso de investimento em emergentes permanece válido.
