As recentes altas do dólar e quedas na bolsa de valores, observadas na segunda-feira (26), demonstram uma reação antecipada do mercado financeiro em relação a impasses estruturais da política fiscal do Brasil. A avaliação foi feita por Samuel Pessôa, pesquisador do BTG Pactual e do Ibre-FGV, em entrevista ao programa WW.
De acordo com o especialista, o nó da questão econômica reside na expansão do gasto público primário. Pessôa detalhou que as despesas obrigatórias da administração federal avançam, impulsionadas por mecanismos de indexação, em um ritmo superior ao da expansão econômica do país.
"Se todo ano o gasto primário precisa crescer, por questões de regras, a uma velocidade maior do que a base material que sustenta o Estado brasileiro, isso pressiona a base material, gera uma pressão inflacionária e, consequentemente, obriga que nós tenhamos juros elevados", declarou o pesquisador.
Para contornar o cenário, o caminho seria implementar diretrizes que alinhem o ritmo de crescimento dos gastos primários ao da economia. Contudo, Pessôa pontuou que o país ainda carece de maturidade política para viabilizar esse acordo: "Isso a gente não consegue politicamente digerir entre nós, negociar entre nós, e esse é o problema".
Críticas ao entendimento do governo
O cenário é agravado pela perspectiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o tema. Conforme a análise de Samuel Pessôa, o chefe do Executivo não enxerga correlação entre as taxas de juros elevadas e a expansão dos gastos estatais, preferindo creditar os juros altos a fatores externos, como pressões vindas da Faria Lima.
"Parece que o presidente Lula não faz uma ligação entre o crescimento do gasto primário do governo central a uma velocidade maior do que o crescimento da economia e os juros elevados", pontuou o pesquisador.
Pessôa avalia que a ausência dessa percepção por parte da principal liderança do país gera incertezas adicionais, antecipadas pelos agentes econômicos: "Como ele não faz esse vínculo, a gente tem uma liderança que não tem muita clareza nos motivos dos juros serem elevados no Brasil. Isso gera uma preocupação, porque sinaliza que teremos problemas à frente e os mercados acabam antecipando".
