A decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) de manter a taxa básica de juros no patamar atual já era amplamente esperada pelo mercado. A avaliação foi feita por Nathalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, em entrevista ao CNN Money. Segundo a especialista, a expectativa pela manutenção era praticamente unânime entre os economistas.
Para a economista, o principal fundamento que motivou a manutenção dos juros foi a forte desancoragem das expectativas de inflação registrada na semana anterior ao encontro do Copom. Ela classificou o movimento como muito forte, intenso e rápido, avaliando que o cenário gerou desconforto na autoridade monetária.
Apesar disso, Nathalie ponderou que a barreira para uma nova elevação dos juros permanece muito alta, uma vez que o próprio comunicado do Banco Central destacou que a desaceleração da atividade econômica tem se mostrado mais acentuada do que o previsto. De acordo com a economista, a mensagem passada pelo BC demonstra preocupação com as expectativas, mas os pontos incluídos no texto oficial estão mais direcionados à fraqueza da atividade.
A especialista também ressaltou a relevância do Banco Central em atuar para evitar a retroalimentação em momentos de desancoragem. Ela explicou que expectativas inflacionárias mais elevadas tornam mais custoso o processo de trazer a inflação de volta à meta, o que pode comprometer a capacidade de resposta da instituição perante uma economia mais fraca. Deste modo, a postura de cautela foi interpretada como uma tentativa de preservar a credibilidade e os instrumentos de política monetária.
Entre os fatores apontados por Nathalie que contribuíram para a deterioração das expectativas de inflação em horizontes mais longos — como 2027, 2028 e 2029 —, destacam-se:
- Dúvidas sobre a continuidade dos subsídios aos combustíveis;
- Impactos da reforma tributária, com alíquota discutida no TCU acima da projeção da maioria dos economistas;
- Percepção de crescimento contínuo da dívida pública.
A economista pontuou que a reversão desse quadro depende de entregas concretas nos âmbitos fiscal e econômico, frisando que o Banco Central enfrenta dificuldades para reancorar expectativas sozinho caso as causas não sejam estritamente monetárias.
Questionada sobre o cenário externo e as altas de juros em economias desenvolvidas, Nathalie lembrou que a política monetária brasileira possui histórico de desacoplamento. Contudo, alertou que o aperto global sincronizado exerce influência sobre o Brasil por meio da taxa de câmbio, visto que o diferencial de juros afeta a atratividade do país para o capital estrangeiro.
Por fim, ao comentar os riscos citados pelo Copom sobre estímulos à demanda agregada, a economista explicou que o BC tem sido surpreendido pela resiliência no consumo das famílias. Medidas fiscais, parafiscais e creditícias, como políticas de transferência de renda, acabam gerando forças opostas ao efeito contracionista da taxa de juros.
