Governos ao redor do mundo estão reorganizando suas políticas agrícolas e industriais para diminuir a dependência externa de proteínas, impulsionando um movimento que pode transformar os fluxos internacionais de soja, rações, carnes e ingredientes alimentares. Conforme relatório do Eurasia Group publicado em setembro de 2026, a tendência — chamada de “nacionalismo das proteínas” — converte a proteína em um ativo estratégico de segurança nacional, indo além de uma simples commodity negociada globalmente.
Essa reestruturação impacta diretamente o Brasil, que mantém posição central na oferta mundial de soja e proteínas animais. Embora o país conserve vantagens na exportação, sua competitividade passa a conviver com o esforço de grandes compradores em investir na produção interna daquilo que atualmente importam. O relatório aponta que os riscos envolvem mudanças estruturais na demanda, o surgimento de concorrentes subsidiados e a disputa pelo controle de tecnologias de produção e processamento.
Ações globais pela autonomia alimentar
A China concentra a transformação mais relevante para o setor agroexportador, colocando a segurança alimentar entre as prioridades nacionais de seu 15º Plano Quinquenal (2026-2030), ao lado da defesa. A estratégia chinesa inclui o desenvolvimento de sementes geneticamente modificadas, expansão de áreas cultivadas, maior eficiência em rações e investimentos em biomanufatura, fermentação de precisão e agricultura celular. A meta é reduzir a vulnerabilidade a fornecedores estrangeiros e oscilações do mercado internacional. Além da autossuficiência, a China pretende ampliar as exportações de aves, laticínios, ovos e produtos aquáticos, o que pode acirrar a concorrência com fornecedores tradicionais.
Em paralelo, outras nações adotam medidas semelhantes:
- Estados Unidos: O governo busca recompor o rebanho bovino — que está no menor nível em 75 anos, segundo o USDA e o Eurasia Group —, oferecendo apoio aos pecuaristas. Contudo, para conter a inflação interna e garantir o abastecimento, Washington ampliou as cotas de importação com isenção tarifária em setembro de 2026 para 300 mil toneladas, tendo o Brasil como principal beneficiário. A estratégia americana também envolve aproximação política e benefícios comerciais, como ações voltadas à Argentina.
- União Europeia: Em julho de 2026, a Comissão Europeia apresentou um plano para elevar a resiliência e a autonomia do sistema de proteínas, incentivando a produção local de proteínas vegetais para alimentação humana e fabricação de rações, visando diminuir a exposição a choques externos.
- Índia: O país lançou um programa de US$ 1,3 bilhão para alcançar a autossuficiência em leguminosas secas até dezembro de 2027, reduzindo compras de países como Canadá e Austrália.
- Outros países: Nações como Dinamarca, Países Baixos, Coreia do Sul e Singapura investem em proteínas alternativas, como alternativas vegetais, ingredientes de fermentação e carne cultivada.
Demanda impulsionada e recomendações estratégicas
O nacionalismo das proteínas ganha força em um cenário de consumo aquecido pela popularização de dietas proteicas, envelhecimento populacional e expansão de classes médias. Os medicamentos para emagrecimento da classe GLP-1 também influenciam os hábitos ao reduzirem o apetite, o que leva profissionais de saúde a recomendarem maior ingestão proteica para preservar massa muscular. Nos Estados Unidos, as diretrizes alimentares de 2026 elevaram a recomendação diária para uma faixa de 1,2 a 1,6 grama por quilo de peso corporal.
Diante desse cenário de possíveis quedas nas compras chinesas de soja e rações a partir de 2027 e do avanço de políticas protecionistas e estruturais, o Eurasia Group recomenda que os exportadores de proteínas diversifiquem mercados, invistam em produtos de maior valor agregado e participem ativamente na definição de padrões comerciais.
